Espaço Social

O PAPA, A SANTIDADE E OS LGBT

Publicado em 9/2/2020 por: Luis Corrêa Lima

Uma bela carta do papa Francisco foi escrita no ano passado sobre a santidade: Gaudete et Exultate (GE), que quer dizer alegrai-vos e exultai (disponível aqui). O título vem das palavras de Jesus no Sermão da Montanha a respeito dos perseguidos ou humilhados por causa d’Ele. O Senhor pede tudo e oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer que sejamos santos e não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. A carta não fala explicitamente dos LGBT, mas pode-se fazer uma leitura a partir do ponto de vista desta população, considerando a incidência de alguns pontos da mensagem pontifícia.

Afirma-se que Deus, ao pedir tudo, também dá tudo, e não quer entrar em nós para mutilar ou enfraquecer, mas para levar à perfeição. Por isso é preciso pedir ao Espírito Santo para nos libertar e expulsar o medo, sem negar-Lhe a entrada em alguns aspetos da nossa vida (GE 175). De fato, uma vez que Deus é nosso criador, nos ama e quer o nosso bem, não devemos ver n’Ele um rival do ser humano ou alguém que quer nos castrar. Sobre isto, convém recordar o que disse certa vez o papa Bento XVI: “o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva”. E acrescentou que é muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente. É muito bom que um papa tenha reconhecido isto, pois há no cristianismo uma história multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na ameaça de condenação e no medo. Historiadores falam de uma “pastoral do medo”, que com veemência culpabiliza as pessoas e as ameaça de condenação eterna para obter a sua conversão. Isto não se restringe ao passado. As proibições ligadas à mensagem cristã frequentemente repercutem mais do que seu conteúdo positivo. É fundamental buscar na mensagem cristã o seu componente positivo, para que esta seja boa notícia, Evangelho. Deus não quer entrar em nossa vida para nos mutilar.

Na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de se interpretar muitos aspetos da doutrina e da vida cristã. Estas, na sua variedade, ajudam a explicitar melhor o riquíssimo tesouro da Palavra divina. A doutrina, bem como o nosso modo de compreendê-la e expressá-la, não é um sistema fechado onde não há perguntas, dúvidas e questões. E as perguntas do nosso povo, suas angústias, batalhas, sonhos e preocupações possuem um valor hermenêutico, de interpretação, que não podemos ignorar se quisermos levar a sério o princípio da encarnação (GE 43-44). Como o verbo se fez carne, Deus assumiu a condição humana em Jesus de Nazaré, de modo que suas ações e palavras em favor da salvação se expressam na cultura humana. A mensagem de Jesus dissemina-se para além de sua vida terrena, em diversos contextos e épocas, com seus respectivos desafios, linguagens e oportunidades, suscitando carismas e inspirando pessoas e comunidades. Muitas perguntas tocam a população LGBT, como a sobrevivência, o enfrentamento da violência e da discriminação em vários níveis, e a luta pela cidadania. Estas também são questões, angústias, batalhas, sonhos e preocupações que não podemos ignorar. O verbo encarnado é luz que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano, como ensina o evangelista (Jo 1,9). Os raios desta luz devem iluminar os mais variados recônditos.

Tal luz, no entanto, não é resposta pronta e automática para todas as questões. Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, alerta o papa, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta. Deus supera-nos infinitamente. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus (GE 41). No transcurso do tempo, a Igreja e a humanidade são peregrinas da verdade. A realidade sempre pode apresentar novas faces, perspectivas e leituras, que rompem as formulações taxativas e imutáveis do dogmatismo. Também as questões que envolvem os LGBT ultrapassam as respostas dadas no passado. Confiná-las em um horizonte restrito é trilhar o caminho dos falsos profetas.

Deus é sempre novidade que nos impele a partir sem cessar, a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos. Jesus se antecipa a nós no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá (GE 135). Isto faz lembrar o padre Júlio Lancellotti, que trabalha na cidade de São Paulo com a população de rua. Ele é um exemplo de quem encontra o Senhor na carne ferida e na vida oprimida de tantos irmãos. Dentre eles estão os LGBT em situação de rua, alguns doentes, feridos e abandonados, sobre os quais Lancellotti atesta: “muitos relatam histórias de violência, abuso, assédio, torturas e crueldades. Alguns contam como foram expulsos das igrejas e comunidades cristãs, rejeitados pelas famílias em nome da moral. Testemunhei lágrimas, feridas, sangue e fome. Impossível não reconhecer neles a presença do Senhor Crucificado”!

A santidade exige discernimento, para podemos cumprir melhor a missão recebida no Batismo. Implica em obediência ao Evangelho como último critério. Mas não se trata de aplicar receitas ou repetir o passado, uma vez que as mesmas soluções não são válidas em todas as circunstâncias, e o que foi útil num contexto pode não o ser noutro. O discernimento nos liberta da rigidez, para que a novidade do Evangelho surja com outra luz (GE 173-174). A fidelidade deve ser criativa, de modo que a pessoa, exercendo sua autonomia, coloque-se em consciência diante de Deus e de suas circunstâncias. Ao escrever em outra ocasião sobre a família, Francisco reafirmou esta autonomia, alertando contra o clericalismo e seu ímpeto dominador: “[...] nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (Amoris Laetitia, n. 37).

Com estas referências, é possível responder de coração a este apelo que resume a carta do papa: “Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças, nem vida, nem alegria. Muito pelo contrário, porque chegarás a ser o que o Pai pensou quando te criou e serás fiel ao teu próprio ser” (GE 32).

Luís Corrêa Lima

Padre jesuíta e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio