SETE PREVISÕES DE COMO SERÁ O NOVO MUNDO NO PÓS-PANDEMIA

Publicado em 11/5/2020 por: Cezar Taurion

O Covid-19 está provocando muitas mudanças na sociedade. Nunca se parou o planeta como dessa vez. Reativá-lo no pós-pandemia será uma experiência única, pelo qual nunca passamos.

Um grande desafio é: como será este novo cenário? É impossível saber o que vai acontecer. Mas podemos considerar as lições do passado, de crises anteriores. Com base nisso, pensar sobre o futuro. Bem, vou arriscar uns pitacos. Vamos lá:

1) Talvez vejamos um repensar sobre as cadeias globais de suprimento e a excessiva dependência da China, provocando uma maior demanda para regionalização e produção local. A maneira como as cadeias de suprimentos globais operam criou esta vulnerabilidade insólita.

As empresas ficaram vulneráveis ??porque não conseguem os componentes que precisam. As cadeias de suprimentos criadas com base no inventário just-in-time e na produção distribuída de componentes (concentradas na China) foram interrompidas pela crise.

Mas, para produzir localmente as fábricas vão precisar ser competitivas, para competir com a eficiente cadeia de produção chinesa e isso deve levar a um aumento do uso da automação, IoT, IA e robótica. Veremos a tal indústria 4.0 se transformando de experiências isoladas em prática corriqueira.

2) As empresas aprenderam que precisam ser mais resilientes (aguentar trancos), ágeis, adaptáveis e elásticas. Falava-se muito em transformação digital, mas, na prática, pouco se fazia de concreto. O atual cenário mostrou que está claro e premente a necessidade das empresas começarem a transformação dos seus negócios.

Muitos executivos com os quais converso demonstram claramente que sabiam que, ao longo dos anos, suas empresas acabaram se acomodando, fazendo o que sempre fizeram, com apenas algumas melhorias incrementais. Agora eles têm certeza que se ainda se mantiverem aferrados a esse ritmo de mudanças graduais, suas organizações se tornarão irrelevantes em pouco tempo.

Entendem que é a própria sobrevivência do negócio que está em jogo e que a revolução digital vai implicar em mudanças significativas e não apenas evolucionárias. Na prática não foram os CEOs que começaram a transformação digital, mas o próprio vírus.

3) O crescimento do online para todas as nossas atividades vai incentivar o que podemos chamar de “contactless economy”. A epidemia SARS-COV-1 de 2003 alavancou o comércio eletrônico na China, transformando o país e criando potências comerciais como Alibaba e outras empresas.

O artigo “The SARS epidemic threatened Alibaba’s survival in 2003—here’s how it made it through to become a $470 billion company” mostra como isso aconteceu. Nada impede, que com a atual pandemia, mudanças como essas também ocorram em muitos outros lugares, como aqui no Brasil.

Com a quarentena vimos que muitos hábitos que adotávamos eram desnecessários e poderíamos fazer tudo online. Nos acostumamos com o delivery de alimentação, com as compras online, com as transações financeiras via apps, com telemedicina, aulas online, fazemos videoconferências e trabalhamos em casa.

Hoje, está se tornando possível imaginar um mundo de negócios – do chão de fábrica ao consumidor individual – no qual o contato humano é minimizado. Já existiam empresas que trabalham 100% remoto, mas eram vistas como curiosidades excêntricas. Um exemplo está aqui neste artigo: “The firm with 900 staff and no office”.

Mas isso significa que o contato humano será eliminado? Absolutamente não acredito nisso. Para muitas pessoas, voltar ao normal incluirá entrar novamente nas lojas e supermercados. Os encontros presenciais continuarão a existir.

Somos seres sociáveis por natureza. Pacientes com necessidades complexas ainda irão pessoalmente consultar seus médicos e muitos tipos de trabalhos não são automatizáveis. Mas as tendências provavelmente são irreversíveis.

Podemos agora ter mais opções. Não será obrigatório estar no escritório, mas poderemos exercer atividades em casa e nos escritórios. Tarefas operacionais de execução podem ser perfeitamente serem executadas remotamente.

Mas provavelmente as que demandam criatividade, inovação e colaboração continuarão a ser presenciais. O artigo “The impact of the ‘open’ workspace on human collaboration” demonstra que colaboração e criatividade são incentivadas quanto as pessoas interagem diretamente.

4) As regulações provavelmente serão revistas. A crise provocou a necessidade de mudanças em muitos aspectos regulatórios, como aqui no Brasil com o uso da telemedicina. O PL 696/2020 é um exemplo.

Pelo texto, “telemedicina é o exercício da medicina mediado por tecnologias para assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde.

Ao sugerir esse recurso, o médico deve esclarecer ao paciente as limitações disso, como a impossibilidade de realizar exames que exijam coleta de material, por exemplo. Também deve informar, se for o caso, as formas de pagamento.

O projeto prevê ainda a ampliação do serviço de telemedicina após o fim da pandemia, com a regulamentação dessa modalidade de atendimento pelo Conselho Federal de Medicina”. Com a evolução rápida das tecnologias wearables e dispositivos que facilitem exames, veremos uma abrangência maior no seu uso.

A educação também deverá ser revista. Um recente relatório do World Economic Forum, “Schools of the Future”, mostrou que o Brasil está muito atrasado e despreparado para competir no novo mundo que se desenha.

O “novo normal” será diferente do que estamos habituados e as habilidades e capacitações para este novo mundo, cada vez mais digital, ágil, incerto e resiliente, demanda uma mudança radical na educação. A regulação terá que permitir essas transformações e agilidade no sistema educacional.

5) O novo mundo pós-Covid vai nos obrigar a repensar muitos dos atuais paradigmas e valores que adotamos na vida empresarial, profissional e pessoal. O objetivo de empresas, como startups, de crescerem rápido, apenas suportado por dinheiro de investidores, e se tornar um unicórnio muito provavelmente ficará como um símbolo de uma época que passou.

As startups precisam ser resilientes, reais e, claro, muitas precisam de investimentos. Mas não podem viver exclusivamente do dinheiro dos investidores. No novo mundo, veremos os ícones do mundo de startups saírem da fantasia dos unicórnios para o mundo real dos camelos. Os livros de sucesso serão tipo “como construir um camelo: resiliência, elasticidade e agilidade serão as regras do jogo”.

O artigo “Esqueçam os unicórnios. As startups, agora, precisam ser camelos” é uma amostra desse novo pensar. As corporações também serão analisadas mais de perto com relação aos seus propósitos e ações durante a crise. Muitas que falavam em parcerias e ecossistemas abandonaram por completo o ecossistema e seus parceiros, e olharam apenas para si mesmas. Podem sobreviver, mas as cicatrizes das feridas ficarão.

6) Setores por completo serão transformados. Em 1996, faz mais de 20 anos, li um livro fantástico, chamado “Only the Paranoid Survive”, do então CEO da Intel, Andrew Grove.

No livro, que considero um clássico em gestão e skills gerenciais e de liderança, ele mostra que as empresas devem estar constantemente alertas para mudanças inesperadas, e tem que, muito rapidamente, se adaptar ou simplesmente irão desaparecer.

Grove fala em Ponto de Inflexão Estratégico, que pode ser desencadeado por qualquer coisa, seja uma mudança na regulação ou uma inovação tecnológica, à primeira vista, distante do seu atual “core business”.

Quando um Ponto de Inflexão Estratégico é alcançado, as regras comuns dos negócios, o “business as usual” perdem a validade. No entanto, se gerenciado corretamente, um Ponto de Inflexão Estratégico pode ser uma oportunidade de vencer no mercado e emergir mais forte do que nunca.

Essa lição continua mais válida que nunca nos dias de hoje, com a disrupção digital provocada pela Covid-19 batendo às portas. As regras do jogo de negócios estão sendo reescritas e as atuais irão desaparecer em breve. As fronteiras ente setores se desmancharão e alguns setores serão irreconhecíveis daqui a alguns anos.

No novo jogo da sociedade digital, os “core businesses” serão frequentemente redesenhados. Os CEOs devem estar preparados para reconsiderar em que indústria a sua empresa opera e em qual estará operando em poucos anos.

Com as empresas se transformando em empresas de tecnologia, pela inclusão da digitalização nos serviços produtos, as competências digitais se tornarão cada vez mais importantes.

7) Algumas tendências tecnológicas que já estavam sinalizadas antes da pandemia. Elas foram e continuarão sendo aceleradas, contribuindo para construir uma sociedade mais resiliente com significativos efeitos sobre como fazemos negócios, como trabalhamos, como produzimos bens, como aprendemos, como procuramos serviços médicos e como nós nos divertimos.

O artigo “10 technology trends to watch in the COVID-19 pandemic” nos dá uma visão panorâmica destas tecnologias, como IA e robótica, e como impulsionarão mudanças na sociedade, como telemedicina, logística via veículos autônomos, e educação à distância de forma mais inteligente que a maioria dos atuais EADs.

Hoje já está bem claro que a transformação digital não é mais uma questão de oportunidade ou escolha, mas imperativo. Quanto mais tempo a empresa demorar para fazer sua transformação, mais irrelevante e marginalizada ficará.

O futuro pertence a empresas que se moverem rápido, inovarem continuamente. Uma frase de Jeff Bezos é emblemática desse novo mundo: “No mundo antigo, você dedicava 30% do seu tempo à construção de um ótimo serviço e 70% do seu tempo a gritar sobre isso. No novo mundo, isso se inverte.”

A questão não é se os executivos das empresas vão aceitar ou não as mudanças provocadas pela transformação digital. Não são eles que impedirão elas de acontecerem. O mundo já mudou. O vírus já fez isso.

Cezar Taurion, NeoFeed