SAIBA QUEM BUSCA MILAGRES...

Publicado em 16/9/2019 por: Eduardo Machado

Entre as minhas memórias de uma infância permeada por uma religiosidade onipresente, onde a rigidez da catequese tradicional se diluía na ternura dos muitos pais, mães, avós, tios, irmãos e primos, um bando de gente que se gostava muito, está a celebração de datas religiosas festivas, como o Dia de Santo Antônio.

Confesso que tinha certa antipatia do santo. É que, para os demais habitantes dos altares, bastavam as novenas e terços rezados em família. Pra Santo Antônio, não; com ele era na base da Trezena! Treze dias de reza justamente na hora que passava “As aventuras de Rin Tin Tin” na televizinho do tio Iracy.

Por intercessão miraculosa do santo, nunca esqueci o refrão da oração. Nem nenhum dos meus irmãos e primos que, ao lerem esta crônica, estarão repetindo, entre risos:

“Saiba quem busca milagres, que os enfermos sara Antônio. Afugenta o erro e a morte, calamidade e demônio. Prisões e mares lhe cedem, saúde e coisas perdidas, são aos mancebos e aos velhos, por ele restituídas”...

Pelo que entendi das explicações catequéticas de Dindinha e das outras tias, Santo Antônio era responsável pelo setor celeste de Achados e Perdidos, entre outras habilidades, como arrumar namorado e marido para as moçoilas casadouras. Dindinha não deve ter rezado com muita fé, pois foi a única das tias a não se casar. Sorte nossa, que a tivemos como segunda mãe de todo mundo.

Hoje, menino crescido, desacreditei de milagres, mas, na minha incredulidade distraída, vivo tropeçando neles o tempo todo. Eu explico.

Os milagres nos quais não acredito são esses anunciados no Rádio e TV, em horários comprados a peso de dízimo, em rede nacional, ou prometidos em faixas, cartazes, outdoors e panfletos distribuídos aos milhares nos sinais, nas filas de ônibus, nas esquinas das grandes cidades.

Não acredito nos milagres de escambo, em que graças são trocadas por ‘donativos espontâneos’ que medem, conferem e atestam a fé do cliente, ou melhor, do fiel. Quanto maior o valor ‘doado’, maior a fé, maior a retribuição milagreira nessa lógica de igrejas que se tornam grandes empresas enpenhadas em pequenos e rentáveis negócios...

Não acredito nos milagres da teologia da prosperidade, que atribui o sofrimento humano a demônios que são diariamente expulsos e voltam no dia seguinte, num moto contínuo que esquece a injustiça enquanto enche os cofres das tais igrejas. Que vê na miséria um castigo, uma maldição aos que estão possuídos pelo diabo, e na riqueza e opulência, inclusive dos seus líderes e pastores, um prêmio pela fé traduzida nos envelopes e sacolinhas que recolhem a doação nossa de cada dia.

Não acredito, tampouco, nos milagres que servem para atestar santidades, garantindo vaga na glória dos altares.

Não acredito nos milagres dos santuários e suas salas de milagres, com a sombria e tétrica decoração de muletas, cadeiras de rodas, membros de cera, fotos de anônimos e camisas de jogadores de futebol.

Não creio nos milagres garantidos pela chantagem das rezas bravas, das orações poderosas, das sete almas benditas, sabidas e entendidas, das novenas infalíveis.

Não creio em santos milagreiros e suas especialidades: santos para quem tem pressa, para as causas impossíveis, santos que desatam nós e encontram coisas perdidas, santos e santos para todas as necessidades da vida. No entanto, na minha descrença, convivi e convivo, o tempo todo, com santos e santas elevados à glória desse imenso altar chamado cotidiano.

Santa Maria do Cafezinho e São Tião Porteiro. São Beto e São Pacheco, que celebram a vida comigo, no bar do Carrapicho. Os santos e santas que leem essas crônicas e, de quando em vez, deixam na minha página um emoji anti solidão.

Essa gente me faz ver milagres aos montes, todo dia.

Estar aqui, escrevendo essas coisas, é um milagre. Você, lendo, outro maior ainda.

É um milagre que ainda sejamos um país, com a História que temos e os políticos que elegemos.

É um milagre acreditar desconfiando, amar em tempos de tanto ódio, esperar contra toda a esperança.

O Deus em que creio se faz milagre, anônimo e cotidiano, em cada um de nós...

Eduardo Machado