Planeta dos Macacos

Publicado em 29/8/2017 por: Rabino Nilton Bonder

Vejo que o nosso macaco está solto

Pensávamos que das ficções científicas antropológicas do século XX, as que melhor retratariam o futuro seriam “1984”, sobre um mundo vigiado e manipulado, ou “The Day After”, sobre o ser humano com poderes de destruição em massa e sem controle. E, no primeiro momento do novo século, pareceu que o modelo da Terra invadida por zumbis ocuparia este lugar nos homens bombas, nos aviões bombas e nos acéfalos jihadistas cortando cabeças como metáfora da menor valia dessa mesma parte de seus próprios corpos. Impensável, no entanto, que o elemento mítico a se impor fosse o do insólito “Planeta dos Macacos”. Porque é justamente o planeta símio que tem se revelado a leitura mais profunda das correntes intrapsíquicas coletivas de nosso tempo.

Mesmo que a ficção de Pierre Boulle “La planète des singes” abordasse pela perspectiva de que alienígenas entre nós, entre as espécies do próprio planeta, pudessem nos atacar, intimava uma importante relação entre humanos e primatas. A ideia de que os macacos enjaulados se tornariam espertos o suficiente para destrancar suas gaiolas e encontrar uma maneira de subjugar os humanos, apontava para o fato de que o macaco em nós, enclausurado pela civilidade evolutiva, seria capaz de fazer incursões e impor importantes revezes à humanidade conquistada e destilada de sua origem primata. Quando olho grandes líderes mundiais, de Trump a Putin, aos exóticos Maduro e Kim Jong-un, à intolerância de Le Pen, Geert Wilders, Victor Órban e Duterte, e, sobretudo a massa de políticos boçais que se proliferou pelos quatro cantos do mundo, representando lideranças brutas e instintivas, além das sete vidas de que dispõem supremacias raciais e fascistas, vejo que nosso macaco está solto.

Não quero fazer pouco dos símios, mas se olharmos características importantes de seu comportamento, em particular as grandes espécies como gorilas, veremos extraordinária similaridade. Os gorilas são xenófobos e violentos para com os que tentam se acercar a seu bando. Sua forma poligâmica oferece ao macho dominante controle sobre todas as fêmeas, excluindo e exilando os demais machos, criando sociedades com infidelidades, possessão e intolerância. Batem no peito dizendo que são o número um e manifestam sua agressividade para intimidar e se impor por bullying.

E este é um movimento recidivo de nossa História: de tanto em tanto os macacos retomam nosso planeta. Eles são claramente uma reação ao processo inexorável de nos tornarmos mais humanos. Os macacos sempre reincidirão como a mais profunda e primitiva matriz de nossa psiquê. No avanço gradual que fazemos, temos que aprender a transformar o horror de vê-los entre nós ou em nós mesmos e vencer o desejo de reenclausurá-los em jaulas. Isso porque se trata de desejo atiçado e despertado em nós pela mesma macaquice que tanto nos assombra e quando vamos ver, nos fizemos mais uma turma-turba dessa mesma espécie. Temos que ampliar as luzes de nossa consciência para tornar mais e mais visível e revelado que essa forma antropoide é apenas uma máscara assemelhada ao humano, representando um estertor a mais do que um dia se fará uma etapa definitivamente evolucionada.

Nilton Bonder