QUEM É O PRÓXIMO?

Sabe quando se está numa destas redes de cafés e vai se aproximando o momento de seu pedido... Quando se terá uma fração de momento de atenção do profissional do caixa demandando que sua escolha seja clara e decidida... Quando qualquer hesitação será recebida com impaciência e inadequação e ao menor sinal de indecisão lhe será roubada a legitimidade comercial levando as pessoas da fila a cassar em olhar seu direito de precedência... Pois é sobre este "próximo" que gostaria de falar.

Terminou-se o tempo mercantilista em que o indivíduo era um freguês, o cliente a quem se dava toda a atenção. Já não era lá um tempo de muita empatia, um tempo marcado mais é por interesses mesmo, mas dele já temos saudades. Hoje o olhar está no "próximo": "Proximo!". O tempo de atenção que nos dispensam é de soslaio, uma breve passagem antes que o protagonista seja "o próximo". Nosso dinheiro, que até então nos comprava a consideração do momento, hoje apenas dá o direito de passagem no encadear de consumidores. Qualquer excentricidade será ameaçada pelo avançar do "próximo". Algo que só havia experimentado no colégio público. Lá, diferente do colégio particular, onde um boleto assegura identidade, o anonimato se fazia o preço da benesse do Estado. Na fila da canjica do recreio, ali naquela situação, eu já havia experimentado ser o próximo antes de ser a mim mesmo.

Tento entender o que seria hoje "amar o próximo como a ti mesmo". Hoje todos nós disputaríamos ser o próximo - o único a merecer atenção e reconhecimento. O presencial não consegue ser amado como alguém ama a si mesmo, mas tão somente o próximo. Estamos é no tempo pós-interesseiro, porque nem sequer a atenção dos outros se consegue por interesse. Isso porque o interesse sempre estará no próximo interesse. Algo só compreensível pelo mundo dos aplicativos, do que pode ser aplicado. O freguês é passado e a referência tanto do foco como do lucro se encontra no que está por vir, um interesse mais viral do que pessoal.

O próximo é com certeza um efeito colateral do olhar de hoje. Esse olhar que é oblíquo, sempre dividido pela atenção preferencial a uma tela, e que nos oferece o mesmo pálido prestígio disponibilizado pelo profissional do caixa: não somos o foco, mas apenas mais um estímulo não presencial e difuso no encadeamento de inputs que constituem o existir. O olhar está no próximo: no que vai pop-up na vida e que teremos que atender ou deletar. E aí tudo faz sentido porque estamos trocando a existência pela aplicabilidade, e o que está presente é irrelevante diante do que está por vir.

Descobrimos que mais fácil do que dobrar a morte com nossa ciência é usá-la para produzir nossa ausência. Inventamos existir no futuro driblando o Anjo da Morte porque não estamos em nenhum lugar do presente. Como um elétron que está em algum lugar da nuvem, mas não tem lócus, também nossa presença, nosso olhar e nosso existir ganham asas no que virá proximamente. Para os que cismam habitar o momento, o mundo se assemelha a uma realidade de zumbis: de pessoas que não olham nos olhos, cuja atenção está sempre na borda da tela à espera do que vai entrar em cena. Enfim acho que estamos no tempo de "amar o próximo mais do que a si mesmo".