Abrindo o mar, abrindo a porta

Rabino Nilton Bonder

Este período do calendário judaico é marcado pela liberdade, ou melhor, a saída rumo à liberdade, caracterizada pelo Êxodo. Para PARDES, dois gestos especificamente ligados a este período no simbolismo judaico se assemelham e são paralelos em sentido e intensidade _ ABRINDO O MAR/ABRINDO A PORTA. Na saída do Egito rumo à lei e à terra prometida, no momento em que o povo encurralado, sem saída, olhava em pânico o Mar Vermelho desde uma de suas margens, abriram-se suas águas. Em nosso Seder, na ritualização de todos os eventos ocorridos nesta saída, abrimos nossas portas a uma figura imaginária. Tão forte é este momento associado ao futuro messiânico em nossas memórias, que nem sequer paramos para pensar qual a realidade desta entidade "o-que-está-lá-fora".

Abrir-se as portas em Pessach está relacionado a um dos sentidos mais importantes desta celebração - o de partilhar com os outros da alegria e refeição. "Koldichfin u-chol ditsrich ietei ve-iechul".- Todo aquele que necessita ( de corpo e de alma) que entre e que coma - é o que dizemos ao quebrar a matza e chamá-la do "pão da aflição e da pobreza "já experimentado.

Abrir-se as portas e esperar o que o próprio folclore judaico criou como paradigma do "o-que-está-lá-fora"- o profeta Elias, o Eliahu Ha-Navi dissimulado em pedinte/mendigo que bate à porta. Incrível inversão em que o mais necessitado, é ao mesmo tempo, chave para a salvação dos que estão dentro. Incrível inversão, em que os de dentro percebem impossível a Redenção sem abrir-se a porta tornando também os de dentro "necessitados" vistos pelo outro lado da porta.

Paralelo é que, detrás da porta que abrimos, está talvez um indivíduo encurralado, sem saída, a ponto de afogar-se em angústia, ao qual a luz, que progressivamente se revela ao abrir da porta, é feito mar que se permite atravessar.

Tal qual molhado ficou seco num gesto de carinho, tal qual fora ficou dentro num gesto de carinho, assim é a Redenção. ABRIR O MAR/ ABRIR A PORTA são gestos similares em que imitamos a divindade em busca de um encontro - como Deus abrir o mar, assim abrimos a porta.

Olhemos através da porta em busca do que está fora mas que é dentro, em busca dos colocados fora do acampamento - dos pobres, dos deficientes físicos, dos perseguidos, dos que desde o outro lado, ao abris-se a porta e tornarem-se visíveis nossos rostos em torno da mesa, se revelam como sendo nós mesmos. Nós que já estivemos lá nesta situação; liberdade que só é possível quando os de dentro relembram a estranha visão através do outro lado da porta.