A corrupção e a dilapidação do nosso patrimônio simbólico

Pastor Eduardo Rosa Pedreira

As conseqüências mais graves da onda de corrupção que tem assolado o nosso país desde longa data, não são aquelas que nossos olhos podem ver, encontram-se no mundo subjetivo, no inconsciente coletivo, "lugar" onde o povo cultiva seus símbolos e valores. Tome-se por exemplo desta verdade, os recentes escândalos envolvendo repasses generosos de vultosas verbas para ONGS suspeitas de servirem como ponte de financiamento ilícito, posto que, boa parte desses recursos retornava a sua fonte em forma de doação para campanhas políticas.

Ao transformar ONGs é um manto para esconder manobras escusas, dá-se mais um tiro no ideário simbólico da nossa nação. Isto porque, as ONGs simbolizam, ou pelo menos simbolizavam, a nobre luta por um ideal de sociedade que passava pelo caminho da ética. Lembremos que foi por constatar a incapacidade e ineficiência do estado brasileiro de cumprir suas obrigações mais elementares (saúde, educação, transporte...), que um número significativo de cidadãos começou a se organizar não governamentalmente numa bela tentativa de unir a força do poder público, os recursos da iniciativa privada e o voluntariado, a fim de formar uma grande aliança que fosse capaz de minorar os efeitos do nosso caos social. Surgia assim o chamado terceiro setor trazendo ares de esperança e se constituindo numa referência real e simbólica de que ainda era possível crer em organizações sociais não manchadas pela corrupção. Agora depois dos referidos escândalos, parte da população que já lançava um olhar de suspeição sobre as ONGs, encontra as melhores razões para delas desconfiar.

Assim começa a morrer mais um símbolo ético no nosso país e aí está a gravidade das ilicitudes cometidas, a dilapidação do patrimônio simbólico do Brasil, levando-nos a desconfiar de tudo e de todos, colocando num mesmo saco todas as farinhas! Não bastasse a pobreza social que nos cerca, assistimos como fruto da corrupção o gradativo empobrecimento existencial do nosso povo, visto que um país torna-se ainda mais pobre quando as entidades que simbolizam pureza ética e esperança são destruídas pelo carimbo da corrupção.

Se guardadas bem as devidas proporções da comparação, é isto que igualmente tem acontecido no âmbito da fé. A igreja, outro símbolo de integridade no imaginário coletivo, vê seu púlpito maculado por discursos eivados de manipulação psicológica em nome de Deus, aparece presente nas manchetes dos jornais protagonizando escândalos econômicos e administrativos dignos de intervenção judicial, torna-se plataforma para pessoas lançaram-se na construção de impérios pessoais marcados por fortes posicionamentos anti-éticos. O desdobramento deste quadro não poderia ser mais grave: na vida cotidiana as pessoas assumem uma atitude de cinismo desesperado diante da vida, na qual se sentem a vontade para "roubar", pois afinal todo mundo rouba, até mesmo os símbolos de valores como as ONGs, as igrejas...

Diante de tal cenário nunca foi tão premente o desafio de interpretar. Somente o discernimento, que etimologicamente significa ver no escuro, pode nos ajudar a evitar generalizações infantis e perceber um veio de resistência ética, pequeno é verdade, neste mar de corrupção no qual estamos inseridos. Por isso me solidarizo aqui com todos aqueles que trabalhando no terceiro setor não se prostituíram diante das ofertas fáceis e mantêm-se fieis aos ideais mais nobres de continuar sendo instrumento de vida, paz e bem neste país tão marcada pela morte. Esta santa resistência nos lembra que o pleno crescimento deste país passa pela recuperação do seu patrimônio simbólico. E isto acontecerá somente quando as organizações que por natureza são referências da nossa sociedade, assumirem sua responsabilidade de modelos inspiradores para uma revolução ética. Mas enquanto elas forem reféns de pessoas inimigas do bem público, resta-nos pouca, porém, imorredoura esperança!

EDUARDO ROSA PEDREIRA é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca e professor de ética corporativa da Fundação Getúlio Vargas. E-mail: prof.edubadufgv@terra.com.br