Eu e tu

Por: Pastor Eduardo Rosa Pedreira

"... anoiteça e amanheça eu..."
Marisa Monte


Eu não sou eu sozinho. Sou sempre um ser habitado por tantos outros seres. Sou na verdade um conjunto de tus que resultaram num eu. Aquilo que eu chamo eu em mim, na verdade é também um pouco do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, do meu primeiro amor, dos meus amigos e amigas mais cúmplices das minhas aventuras, tenham sido elas boas ou não tão agradáveis de serem lembradas. Sou também alguém resultante das experiências da minha história. Eu sou o que até hoje sinto da minha primeira dor, da minha primeira decepção, da minha primeira alegria, da minha primeira vitória, da minha primeira derrota...Sou assim, alguém fruto de uma porção de experiências que foram deixando em mim marcas, sensações, sentimentos tão determinantes que fazem de mim o que sou. Ainda sou alguém fruto dos lugares vividos. A geografia da minha vida tem muita ver com a formação do meu eu. Não somente pessoas, experiências, mas também lugares estão guardados dentro de mim e me explicam muito de quem sou. Sou um resultado também da praia que gosto, do escurinho do cinema, do cantinho do meu quarto, do lugar onde rolou o primeiro beijo, do meu esconderijo secreto, dos parques e jardins, enfim, de todos os lugares nos quais ri e chorei, sonhei e acordei, amei e foi amado.

Assim sou eu e eu sou assim: um ser de pessoas, experiências e lugares. Ver-me como sendo resultante de tanta coisa fora de mim, me ajuda a perceber a minha radical dependência para com toda minha história. Não existe esse papo de eu sou mais eu, pois eu sempre serei alguém como resultado de outro alguém que me ajudou a ser o que sou, bom ou ruim, bonito ou feio, magro ou gordo, mas eu. Todavia, em meio a tudo isso, eu sou mais do que tudo que me formou. Eu sou eu e apesar de todas as influências formadoras da minha vida, eu ainda sei que sou eu independente de qualquer coisa. Chega um momento na minha vida que o que mais quero é ser eu mesmo. Não quero ser mais ninguém, quero ser eu. Quero saber as dores e as delicias de ser quem sou e ponto final. Quero anoitecer e amanhecer eu mesmo.

Mas espera um pouco. Algo aqui dentro de mim me avisa, que eu não sou o centro de mim mesmo. Eu preciso de um TU maior do que os vocês que me cercam. Há um TU a quem chamo Deus, maior do que tudo e todos. Percebo que quanto mais o meu Eu fica próximo deste grande TU, então tudo em mim se harmoniza. Quando este TU deságua em mim, então, Eu oceano (do verbo oceanar). Sem esse TU eu nunca poderia ser de verdade EU mesmo. Sem o TÚ-DEUS serei sempre uma caricatura dos outros ou das minhas fantasias sobre mim mesmo. Somente este TU pode me ajudar a fazer anoitecer e amanhecer EU mesmo.

EDUARDO ROSA PEDREIRA é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca e professor da Fundação Getúlio Vargas.