O Teatro da corrupção

Por: Pastor Eduardo Rosa Pedreira

Comecemos pelo lugar-comum: a corrupção no Brasil não é um vírus que vez por outra ataca o corpo da nação; nem é tampouco uma epidemia generalizada, como uma doença de passagem pela alma nacional. A corrupção brasileira deve ser mais apropriadamente comparada a um câncer sempre presente na trajetória histórica do nosso povo, uma doença nacional cujos efeitos nefastos encontram raízes no passado, mostram suas garras no presente e tendem a eternizar-se em nosso futuro.

Das muitas facetas da corrupção neste país, uma em particular me tem captado a atenção ultimamente. É inegavelmente notório o nível dos argumentos usados por pessoas públicas envolvidas recentemente em casos de corrupção. A falta de consistência das respostas às acusações e das investigações feitas é tão flagrante, que chamar tais tentativas de defesa de argumentos seria um exagerado elogio. A falta de coerência de tais discursos está muito mais para desculpas ridículas incapazes de convencer o mais ingênuo dos cidadãos do que para argumentos de defesa.

Espera-se de um ladrão inteligente não apenas a sagacidade no ato de roubar, mas também a engenhosidade de um álibi consistente. Hoje no Brasil os que lesam o patrimônio da nação parecem não se preocupar nem com planos inteligentes para deitar a mão naquilo que não é seu, nem, muito menos, com explicações elaboradas para tentar se defender. Tal atitude pode ser sintoma de duas realidades: ou essas pessoas não têm mesmo argumentos para se defender por estarem envolvidas em atos indefensáveis, ou são suficientemente cínicas a ponto de roubarem mal e ainda se explicarem mal, confiadas que estão no chão da impunidade que as sustenta. Lesados que somos por eles, mereceríamos uma atuação melhor, um discurso mais polido. Já que nos roubam descabidamente, mereceríamos no mínimo atores melhores, com falas mais convincentes. Ao menos isso nos daria um pouco mais de ânimo para assistirmos a esta "festa pobre". Eles já nem se estão preocupando em se dar ao trabalho de sequer nos enganar com maestria. Na verdade, quando algumas dessas pessoas vêm a público para se defender eu me sinto ultrajado na minha inteligência. Sou e somos, portanto, lesados duplamente, no nosso bolso e na nossa dignidade de merecer ouvir uma mentira mais elaborada. Por mais absurdo que possa soar, em alguns casos já nem espero mais pela verdade; estou num nível abaixo: quero pelo menos mentiras melhor contadas. Isso porque, quando alguém se preocupa em mentir bem, a situação não é resolvida, mas pelo menos da parte de quem está mentindo se detecta um mínimo de preocupação com a inteligência de quem está ouvindo.

Aos corruptos desta nação peço - já que detestam a luz da verdade e da justiça sobre seus atos - que pelo menos não nos privem do show. Por favor, no mínimo isto: não nos roubem a última coisa que vocês poderiam nos oferecer - um belo espetáculo composto das mentiras mais bem fabricadas; uma grande peça na qual todos saberíamos quão falsas seriam as falas, mas pelo menos nos divertiríamos com a cínica e brilhante interpretação de vocês diante das câmeras. Quem sabe dessa maneira seríamos forçados a encarar o dinheiro que nos foi tirado como uma espécie de ingresso compulsório para assistirmos - no teatro da corrupção - a uma montagem de mentiras públicas visando esconder verdades privadas.

EDUARDO ROSA PEDREIRA é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca e professor da Fundação Getúlio Vargas.