A greve de fome e o direito de suspeitar

Por: Pastor Eduardo Rosa Pedreira

A greve de fome é uma das atitudes simbólicas mais poderosas e sagradas na luta contra as injustiças sociais e políticas. É poderosa por forçar de maneira não violenta, mas extremamente eficaz, poderes opressores a recuar em suas ações contra os mais fracos e injustiçados. É sagrada, porque envolve o sacrifício feito por uma pessoa inocente para o benefício de muitos, sacrifício este que se levado às últimas conseqüências pode inclusive trazer a morte. Quando vemos o sublime poder e a sacralidade desta experiência associada à péssima imagem que tem hoje os políticos em geral no nosso país, não é de se estranhar quão falso soa para nós quando um deles faz uma greve de fome. É quase impossível não desconfiar das suas reais intenções. Aventamos então a possibilidade de que por traz da greve de fome de um político sobre quem pesa sérias denúncias e estando o mesmo as vésperas de uma disputa eleitoral, existam talvez duas razões:

A primeira e mais óbvia é que esta greve possa ser uma estratégia de marketing político construída mais para esconder do que revelar, com o objetivo de desviar a atenção do público em geral das sérias denúncias que foram levantadas. Troca-se então explicações por encenações, na tentativa de ganhar tempo desviando o foco do ponto central para um periférico.

A segunda e mais sutil é que a greve de fome é um excelente reforço ao papel de vítima que alguns políticos têm assumido nesta nação. Obviamente que eles sabem ter a nossa cultura uma especial afeição por vítimas, sendo então muito conveniente colocar-se nesta posição, pois ela não somente tem o potencial de sensibilizar eleitores, como de livrá-los da responsabilidade de dar respostas plausíveis aos seus atos. Daí que o mecanismo da vitimização é o recurso mais exaustivamente usado quando um deles está sendo denunciando. Em linhas gerais, funciona da seguinte maneira: a imprensa, os empresários, especialmente os banqueiros patrocinadores do modelo neo-liberal, o partido oposto unem-se numa conspiração para atacá-lo, pois estes inimigos da nação sabem que não podem permitir sua chegada ao poder, posto que uma vez lá, defenderá o povo brasileiro destes conspiradores. Se este mecanismo funciona para uma parcela do eleitorado traduzindo-se em votos, para uma outra parcela chega ser um acinte a inteligência.

Se tais suspeitas se confirmam, então assistimos com tristeza este profundo desrespeito e banalização de um símbolo que pertence à humanidade. Todavia se, de fato, trata-se de uma autêntica manifestação de uma pessoa injustiçada, fica aqui o nosso sincero pedido de perdão pelas suspeitas levantadas, juntamente com votos de que além da greve de fome nos seja servida uma mesa farta de explicações convincentes e, portanto, capazes de nos revelar com precisão sua inocência! Na ausência deste banquete explicativo, só nos resta apegar-nos ao nosso legítimo direito de suspeitar.

EDUARDO ROSA PEDREIRA é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca e professor da Fundação Getúlio Vargas.