Espaço Social

UMA NOVA CASA COMUM POSSÍVEL

Publicado em 27/1/2020 por: Instituto Humanitas Unisinos

Pensar os rumos da vida no planeta implica, antes de tudo, estar conectado à alma, à nossa e a do próprio planeta. Esse foi o tom do Fórum Social das Resistências, realizado na quinta-feira, 23-1-2020, no Auditório Central da Unisinos, em São Leopoldo. Uma breve história contada pelo monge beneditino Marcelo Barros, ajuda a entender de que ordem são nossos desafios para pensarmos os direitos do planeta e os bens comuns, tema do encontro.

“Um índio do Xingu foi a Petrópolis, há uns quatro anos, para falar sobre direitos humanos. Um amigo meu o levou de carro. O indígena pediu para parar o carro, desceu e foi contemplar a paisagem. Passados alguns minutos, o motorista pergumtou o motivo pelo qual estavam parados ali, à beira da estrada. O indígena respondeu que se devia ao fato de que eles haviam subido a serra rápido demais e sua alma havia ficado para trás e disse: Quando eu perco a minha alma, me uno à mãe natureza, abraço uma árvore, me uno à minha comunidade. Estou aqui procurando a minha alma. E você, quando perde a sua, o que faz?”, provocou Barros, ao lembrar da história do indígena.

Talvez o primeiro passo para cuidar de nossa casa comum, seja justamente o de se reconhecer parte da terra, estar inexoravelmente conectado a ela. E foi desta forma, como quem jamais esqueceu quem é e de onde vem, que Iracema Nascimento, liderança indígena Kaingang, de Nonoai, no RS, entoou uma longa fala em seu idioma nativo na abertura do evento. Em bom português, depois, disse. “Somos a voz da terra, da água e da árvore. Nossa terra está doente, nossa água está doente e nossa árvore está doente. Perante a mãe terra, somos todos irmãs e irmãos e estamos todos aqui sofrendo, colhendo coisas que nós mesmos, os seres humanos, semeamos. Reconheço que nos livros há muitos ensinamentos, mas eles não são cumpridos. Assim é com a Constituição”, pontuou Iracema em tom severo, como quem nos recorda que somos incapazes de cumprir aquilo que nós mesmos estabelecemos como lei.

Ecoando as advertências científicas, Iracema lembrou que “os seres humanos, se seguirem desse jeito, serão extintos. Ainda não foram porque os indígenas ainda continuam trabalhando, mantendo as florestas, mas estamos cansando”, ressaltou. “Nós sabemos, há séculos, que existem pedras preciosas debaixo da terra, mas a gente não tira porque sabe que gera desequilíbrio na natureza”, finalizou.

A segunda fala da manhã foi de Alice de Oliveira Martins, indígena Guarani, graduanda do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e militante dos movimentos por luta de moradia e território dos povos indígenas. A história dos grupos guaranis urbanizados, recordou ela, está diretamente ligada ao êxodo forçado de seus territórios sagrados durante a ditadura civil-militar brasileira. “A nossa história, dos guaranis urbanizados começa com a ditadura e com a expulsão seus territórios. Estamos trabalhando nesse processo de retomada, porque todo território é território indígena. É por isso que estaremos em todos os lugares defendendo nossa cultura”, ressaltou.

Preocupada com os rumos da política agrária e ambiental do governo Bolsonaro, Alice recordou a Medida Provisória 910, publicada em dezembro de 2019, que poderá resultar na legalização de terra griladas. “A MP 910 servirá para derrubar a floresta, plantar soja e colocar boi. O que resta de possibilidade de viver nesse mundo diz respeito ao trabalho dos povos indígenas”, asseverou. Entretanto, fez uma ressalva importante diante da plateia. “Essa estrutura de país não vem de agora, vem de muito tempo. Os governos nunca foram bons para os povos indígenas. É preciso refletir sobre como estamos e o que ainda podemos fazer para preservar o pouco que ainda nos resta. Eles vão levando tudo em nome do desenvolvimento”, criticou.

Iara Pietricovsky, antropóloga, cientista política e atriz, representante do Instituto de Estudos Socioeconômicos – Inesc, abordou questões relacionadas ao Brasil e à conjuntura internacional. “É preciso agir de uma forma interativa na diversidade para mudar o rumo do mundo. Esse é um problema das esquerdas. A fala da unidade é a da necessidade de construirmos um contraponto. A Greta [Thunberg] é um grande exemplo, mas nós temos aqui muitas ‘Gretas’ [apontando para a Alice]. Hoje é muito difícil definir as coisas, mas coletivamente podemos avançar nesse trabalho”, destacou.

Uma das questões levantadas por Iara é a decadência dos marcos da democracia liberal que passa a ser ocupada pelo quem vem sendo chamado de “democracias iliberais”. “O Neoliberalismo está introjetado em cada pessoa cada vez que alguém escolhe uma saída individual. Todo mundo se tornou empreendedor de si e se converteram em escravos de quem quer ganhar com isso”, criticou.

“O papel das instituições multilaterais que surgiram no pós-guerra está sendo substituído pelos acordos comerciais bilaterais. A liberalização do comércio e as grandes corporações estão enfraquecendo o Estado porque a iniciativa privada tem isenção fiscal, sistema tributário regressivo e toda a sorte de mecanismos de isenção a favor da iniciativa privada”, salientou. “Isso acontece porque nós, a esquerda, não conseguimos fazer a leitura para impedir isso. Não há outro jeito. É construir pensamento e mobilização de rua para criar constrangimento. Somos responsáveis e copartícipes desse processo, se falharmos seremos partes desta desilusão e desse fracasso”, complementou.

Marcelo Barros a quem nos referimos na abertura da reportagem, tratou de falar de uma mística que dá vida ao capitalismo. “Há uma mística do capitalismo, do racismo e de toda a coisa horrorosa que estamos vivendo. A tragédia é que as religiões do mundo aceitaram isso e conviveram com isso. As igrejas cristãs criaram um monstro, a teologia da prosperidade e isso não está restrito à Universal, mas também à Igreja Católica”, pontuou.

Contra o dogmatismo que se fecha em si próprio, Barros propõe que devemos assumir a teologia da libertação, a teologia negra a teologia queer, entre outras expressões. “Não se trata de incorporar ao cristianismo outras tradições. Não pode ser um novo colonialismo, mas sim como aprendemos com as outras tradições para vivermos a fé universal”, ressaltou. “Se dissermos que Jesus é salvador significa dizer que ele é revolucionário. Então, gente, não percam a alma”, finalizou.

Instituto Humanitas Unisinos