Afrodescendentes Online

Pergunta:
qual a situação no mercado de trabalho quanto a discriminação para com os negros?



Resposta:
Amigo Rogério, /// Como é de seu conhecimento, desde o início da história de nosso país, negras e negros vêm sofrendo discriminação. Exatamente como na antiga Grécia, com uma "democracia" dividida entre cidadãos, de um lado, e não cidadãos, de outro, o Brasil colocou aos/às negros/as (que aqui foram escravizados) todo o trabalho "braçal" dos diferentes "ciclos" econômicos. O que é importante de ser observado, na história de nosso país, é que o chamado trabalho "braçal" era muito mais um trabalho de conhecimento e de tecnologia dominados pelas diferentes etnias que aqui chegaram. /// Exatamente por isso, um autor (cujo nome nos escapa nesse momento) reflete que o Brasil não teve um ciclo da borracha, um ciclo do pau-brasil, do açúcar, do ouro ou do café, mas apenas um único ciclo: o ciclo escravista! Pois todos esses "ciclos" dependeram do conhecimento dos povos africanos: na agricultura, na mineração, na arquitetura, nas artes (igrejas, com suas decorações e adereços). /// Trazendo o assunto para um tempo mais atual, já há 10 anos (1998), o DIEESE realizou uma pesquisa para o INSPIR - Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial - http://www.dieese.org.br/esp/negro.xml -, cujos resultados estão no "Mapa da População Negra no Mercado de Trabalho" demonstrando uma situação de reiterada desigualdade para os trabalhadores negros, de ambos os sexos, no mercado de trabalho das seis regiões metropolitanas estudadas. /// Tratando do mercado de trabalho no Brasil, a partir da segunda metade do século XIX, "Mercado de Trabalho e Racismo", o economista e sociólogo, Cleito Pereira dos Santos, Mestre em Sociologia pela UFMG, reflete que esse tratamento faz com que "antes de mais nada nos reportemos ao longo processo de constituição da ideologia racial implementado por intelectuais e pelas classes dominantes a partir deste período." O mercado de trabalho já está "estruturado de cima para baixo pelo poder estatal, (e) privilegiava os indivíduos brancos e dificultava o acesso de outros grupos raciais tendo em vista a crença, então em voga por aqui, a respeito da superioridade dos brancos. Essa ideologia racial irá, evidentemente, dificultar a inserção dos negros no nascente mercado de trabalho tendo em vista sua suposta inferioridade e a discriminação racial será, então, uma das marcas visíveis que o negro encontrará na busca por trabalho." - http://www.espacoacademico.com.br/033/33csantos.htmhttp://www.espacoacademico.com.br/033/33csantos.htm /// E, muito recentemente (em 2006), em "Os negros nos mercados de trabalho metropolitanos", podemos rever pesquisa do DIEESE - http://www.app.com.br/portalapp/uploads/publicacoes/Dieese_pesquisa_negros_2006_1.pdf - mostrando que "No mercado de trabalho, essa segregação se expressa com clareza através dos indicadores desfavoráveis de emprego, rendimento e qualidade da ocupação. O engajamento mais desfavorável no mercado de trabalho está relacionado com a baixa escolaridade dos negros, expresso pela dificuldade de acesso à educação e pela maior incidência da pobreza. Estes são fatores objetivos e que hierarquizam as diferenças naturais entre trabalhadores e, no caso do Brasil, colocam os negros em desvantagem em relação aos não-negros." (p. 2) /// E mais: "Além da maior dificuldade de inserção, a remuneração dos negros é, em todas as regiões, muito inferior a dos não-negros." (p. 5) /// Isso evidencia que absolutamente NADA MUDOU desde o início do escravismo! /// Uma pessoa com mente menos atenta poderia ponderar que não se trata de uma questão de oportunidade (ou de falta de), mas que isso se deve (como informa a pesquisa) à "baixa escolaridade dos negros" (e, ressalte-se que isso não é de responsabilidade dos negros!). Mas, quando tratamos de cargos de gestão (incluindo negros com alta escolaridade), vamos verificar que os "Negros são os que menos representam cargos executivos" [pesquisa realizada pelo Instituto Ethos e pelo Ibope Opinião revelou que os negros são minoria em todos os níveis do quadro de funcionários das maiores empresas do Brasil - 13 de maio de 2008 - http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=5720] /// Na verdade, o que constatamos é que independentemente que qualquer dado real de escolaridade, escala social, ou outro, existe uma discriminação real de negras e de negros no mercado de trabalho, conforme o trabalho de Sergei Suarez Dillon Soares (da Diretoria de Estudos Sociais do IPEA.) "O Perfil da Discriminação no Mercado de Trabalho - Homens Negros, Mulheres Brancas e Mulheres Negras" - Brasília, novembro de 2000 - http://www.aids.gov.br/data/documents/storedDocuments/7BB8EF5DAF-23AE-4891-AD36-1903553A31747D/7B43FDF71E-7AB3-4719-9184-431B617FC6A37D/trabalho.pdf E, como é muito evidente para a população negra, o autor nos leva a refletir que "... nem todas as discriminações são iguais. Uma coisa era o sofrimento de ciganos na Alemanha nazista ou de negros na África do Sul com o "apartheid", outra, a discriminação contra magrebinos na França de hoje. A diferença fundamental é o grau. Em muitos aspectos da vida, a discriminação é difícil ou impossível de se medir, mas, em outros, a sua mensuração é possível. Podemos, assim, seguir o seu comportamento ao longo do tempo, além de comparar as discriminações sofridas por diferentes grupos. UMA DAS ESFERAS DA VIDA NA QUAL É POSSÍVEL MENSURAR OS EFEITOS DA DISCRIMINAÇÃO É O MERCADO DE TRABALHO (o grifo em "caixa alta" é nosso). E continua: "Neste artigo pretendemos estudar, quantitativamente e ao longo do tempo, os resultados sobre os indivíduos das práticas discriminatórias no Brasil." (p.7) /// É muito importante, ainda, fazer um recorte na questão de gênero e considerar as referências específicas sobre as mulheres negras, a exemplo de "Mulher negra: dupla discriminação nos mercados de trabalho metropolitanos", em http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/11/268452.shtml e "Participação de mulheres e negros no mercado aumenta, mas continua desvantajosa" -http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/05/08/materia.2007-05-08.1564551757/view /// Sobre "desigualdade racial no mercado de trabalho" é importante considerar a advocacia de combate promovida pelo advogado Humberto Adami, cujo extrato podemos encontrar em http://www.observatoriosocial.org.br/conex2/?q=node/313 /// Para finalizar, ressaltamos que a situação hoje, em 2008, não tem nada de diferente em relação ao que viveu a população negra no início dos tempos de escravização, quando foi "arrastada" de seu continente de origem. A se manterem as tendências atuais de transferência de renda, o "país levaria 32 anos para igualar salários de negros e brancos", como está mostrado em O Globo, fazendo referência a 2008 (120 anos após a abolição): http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/05/13/pesquisa_mostra_situacao_do_negro_no_pais_120_anos_apos_abolicao-427355971.asp /// E a Agência Brasil continua: "Negros ganham, em média, 50 menos do que demais trabalhadores na mesma ocupação" - http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/05/13/materia.2008-05-13.8156462997/view - A inserção da população negra na economia brasileira não foi suficiente para equilibrar as diferenças trazidas com o regime escravocrata. Os negros continuam tendo uma diferença desvantajosa em termos de condições de trabalho e de rendimentos. A avaliação é do diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio. /// É certo, conforme o governo brasileiro e as avaliações da Organização Mundial do Trabalho que caiu 31 entre 1995 e 2005 a desigualdade de renda entre brancos e negros no Brasil (2007)- http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/reuters/2007/05/10/ult29u55309.jhtm /// Como "nem tudo são flores", como diz o dito popular, no mesmo relatório de 2007, uma mulher negra ainda ganha apenas metade do que um homem branco, além de constatarmos novas formas de discriminação no trabalho, além das tradicionais discriminações por gênero, raça. Religião, idioma e origem social são novas formas de discriminação que estão se intensificando no mundo do trabalho, sendo, ainda, cada vez mais comum o preconceito na contratação de trabalhadores jovens ou mais velhos, pessoas com deficiência, pessoas vivendo com HIV e com orientação sexual diversa - http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/05/08/materia.2007-05-08.4576050635/view /// Continuando com foco na realidade brasileira, o IPEA alerta para o fato de o país ainda despontar internacionalmente como um dos que possui o maior grau de desigualdade de renda do mundo, mesmo se for levado em conta países com índices de desenvolvimento semelhantes, como os da América Latina. Em 13 de abril de 2007 - http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/04/13/materia.2007-04-13.1706054595/view /// Obrigada pela oportunidade da reflexão, /// abraços, Ana