Afrodescendentes Online

Pergunta:
Estou fazendo um trabalho de graduação em história que aborda o preconceito com que é tratado o baiano(preguiçoso e que não gosta de trabalhar,que é moroso)e como ele é visto ainda hoje pela sociedade. Gostaria de saber se podem ajudar-me a destrinchar esse emaranhado de ses e porques. Muito agradecida.



Resposta:
Estimada Tânia Oliveira, /// Conforme você já informa em sua consulta, dizer que baiano é preguiçoso é realmente um preconceito. /// A fundamentação dessa assertiva pode ser encontrada na pesquisa da antropóloga Elisete Zanlorenzi que culminou em sua tese de doutorado na USP, mostrando as origens do mito da preguiça baiana. /// "De acordo com antropóloga, a idéia de que o povo baiano é culturalmente preguiçoso é falsa. Em sua tese de doutorado, O Mito da Preguiça Baiana, apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, a pesquisadora desvendou as origens deste mito. /// Partindo de levantamentos realizados nas empresas de Salvador, Elisete demonstra que o baiano trabalha tanto quanto os outros brasileiros. Em uma das empresas pesquisadas durante o mês de fevereiro (Carnaval), houve mais faltas abonadas na filial em São Paulo (0,61) do que na sede em Salvador (0,27). /// Segundo ela, a caracterização do baiano como preguiçoso começa com as grandes migrações de nordestinos, genericamente chamados de "baianos", para o sul do País. Os recém chegados, ainda sem emprego, alojavam-se em cortiços ou favelas. "Estas condições contribuíram para que o termo baiano fosse associado a outros como sujo, desorganizado, não produtivo e, finalmente, preguiçoso", explica Elisete. /// Um outro aspecto interessante que contribuiu com a associação da Bahia à preguiça está ligado ao discurso de baianos famosos como Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gal Costa, e Maria Bethânia. "Eles chegavam no eixo Rio-São Paulo afirmando serem preguiçosos. Era como dizer: eu não sou daqui", analisa a pesquisadora. /// Em sua tese, Elisete menciona outros quatro motivos para a formação do mito da preguiça baiana: a industrialização tardia de Salvador, a indústria do turismo, que mostra somente o aspecto divertido da festa, o discurso da imprensa, que transmite apenas o lado trágico das migrações, e a indústria da seca, que forjou uma imagem do nordeste ligada à incapacidade profissional para justificar a necessidade de investimentos na região." /// Essas anotações são de 1998 e estão no link http://www.usp.br/agen/rede338.htm que ainda fornece um telefone 19-243-9998 e o endereço de e-mail da doutora Elisete Zanlorenzi - zanzi@lexxa.com.br. Não sabemos se essas dados de contato estão atualizados. /// Adiantamos que a USP tem um site onde podemos baixar dissertações de mestrado e teses de doutorado, mas a referida não se encontra no site - http://www.teses.usp.br/ /// Vale verificar um artigo sobre a tese "Mito ou identidade cultural da preguiça", em http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000300005&script=sci_arttext /// E, ainda, num pequeno trecho, João Ubaldo Ribeiro chama isso de estereótipo - http://www.revistaoi.com.br/nova/joao_ubaldo_ribeiro.asp /// Há uma interessante matéria do "Correio da Bahia", de 2004, com reflexões de antropólogos sobre o assunto: http://www.correiodabahia.com.br/aquisalvador/noticia_impressao.asp?codigo=26956 /// Desejamos ter contribuído com sua pesquisa e reafirmamos a necessidade da superação dos estereótipos racistas que tentam pasteurizar as culturas, sem qualquer contextualização histórica, antropológica, social e econômica. Seu trabalho, Tânia, vem na linha necessária da desmistificação de um imaginário simbólico, dentre tantos que ainda perseguem nosso povo negro. Forte abraço, Ana