Espaço Social

PLANTAR É NÃO COLHER

Publicado em 5/11/2019 por: Tânia da Silva Mayer

A sabedoria literária ensina que "O que a vida quer da gente é coragem". Coragem, sobretudo, para compreender o movimento da vida e seguir adiante no confronto com a fragilidade da existência. Por isso, todos os momentos vividos ensinam uma sabedoria a quem a quiser e puder compreender. E a estrada da vida é longa, mesmo quando confrontada pelo fim na juventude, de modo que as experiências agregam elementos que vão nos tornando pessoas corajosas na arte de viver e ser no mundo em sociedade.

Um ditado atribuído ao povo árabe afirma que quem planta tâmaras não colhe tâmaras. Essa sabedoria quer dizer exatamente que um é o sujeito que planta e outro é o que colhe. Isso se daria por causa do tempo de crescimento desta planta. Como levaria em torno de 80 a 100 anos para dar frutos, conforme algumas fontes, aquele que plantou um pé de tâmaras dificilmente viverá para colher dos seus frutos. Desse modo, o plantio é sempre para o outro. Planta-se não para si, mas para que alguém possa se deliciar e se beneficiar.

O pai de uma amiga minha gosta muito de plantar todo tipo de planta, principalmente as frutíferas. Tem gosto por cultivar a terra e fazer mudas e ver crescer vagarosamente as flores e os frutos. Minha amiga me contou que certa vez um vizinho questionou seu pai sobre ele plantar plantas que, segundo o homem, demorariam muito tempo para dar frutos, de modo que ele poderia morrer antes de colhê-los. Muito sabiamente, o pai de minha amiga argumentou que não se importava em realizar esse trabalho porque se ele não colhesse os frutos, os filhos e os netos dele, certamente, beneficiariam-se e se deliciariam de um doce e cheiroso pomar. Pois ele não plantava para si mesmo, mas para os seus.

É preciso coragem para compreender que muito do que fazemos ao longo da vida não é realizado para nosso benefício próprio. É preciso coragem para aceitar que podemos não participar da alegre colheita dos frutos dos plantios diversos que realizamos com o suor de nossos rostos. E isso não deve ser motivo de tristeza ou infelicidade, pois a vida só tem sentido quando pode ser abertura e bem para os outros. Por isso, a alegria de quem planta consiste exatamente em saber que mesmo não podendo colher os frutos do que foi plantado, outras pessoas poderão fazê-lo e se alegrar por esse dom.

A fé cristã nos foi dada como uma herança. Outras pessoas regaram o chão com o sangue de seus corpos em louvor do Evangelho de Jesus Cristo e permitiram que a fé crescesse e se estendesse até nós. Por isso, os cristãos sabemos que nada daquilo que fazemos no plantio do Reino nas realidades do mundo é para nosso exclusivo proveito, mas, principalmente, para os que compartilham a existência conosco e para os que vierem depois de nós. E é esta a nossa alegria, que todos colham os frutos da justiça, da paz e da misericórdia.

Por outro lado, essa mesma fé ensina que um é o trabalho do agricultor e outro é o trabalho da terra, invisível aos olhos do semeador e impossível de ser manipulado por esse (Cf. MC 4,26-29). Por essa razão, é preciso coragem para assumir que podemos não colher os frutos no tempo devido e que também não somos senhores absolutos dos processos, participando da semeadura, mas não podendo controlar os fluxos misteriosos que nos escapam por infindas razões e que fazem também frutificar. Aprendamos com a vida que plantar é não colher, mas dar como dom, coisa para quem tem coragem.

Tânia da Silva Mayer

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