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VOZES QUE DESAFIAM. DOROTHY STANG, PROFETIZA E MÁRTIR DA AMAZÔNIA

Publicado em 21/10/2019 por: Instituto Humanitas Unisinos

Uma década antes de a encíclica Laudato Si’ ser publicada, nas terras de Anapu, na Amazônia brasileira, era “plantada em solo brasileiro” a semente de um modo de pensar, de se relacionar com o mundo, com a construção de novos valores, partindo da perspectiva de que "Deus está em todas coisas" e caminha com os desfavorecidos. Em 12 de fevereiro de 2005, a missionária estadunidense Dorothy Stang foi vítima daquilo que enfrentava: a exploração da terra e dos pobres em favor do lucro e da ganância de poucos. O seu legado ainda brota e se constitui como inspiração para o ponto de inflexão que se encontra a Igreja e todo o mundo.

Dorothy Stang nasceu em 1931, em Dayton, Ohio, Estados Unidos. Chegou ao Brasil na década de 1960, era missionária da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur. A irmã Dorothy desempenhou seu trabalho diretamente nas comunidades amazônicas, reconhecendo a realidade marcada pela desigualdade e pelas relações construídas pela exploração da floresta e das populações empobrecidas, indígenas, ribeirinhos e trabalhadores.

Dorothy Stang foi uma religiosa fruto de uma Igreja que se faz pobre com os pobres. Em entrevista especial à IHU On-Line, David Stang, irmão de Dorothy e também missionário, relata que "nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres e aqueles que tinham muito pouco, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades, tanto físicas quanto espirituais".

Na entrevista concedida em 2009, David destacava as percepções da mística de Dorothy Stang, que antes de entrar no centro do debate da Igreja com a encíclica Laudato Si', compreendia a necessidade de uma mística associada com a ecologia. "Dorothy acreditava que o divino está em todo o lugar, que Deus nos deu esta grande terra para ser compartilhada por todos nós".

Irmã Dorothy não construiu um legado apenas místico, mas teve na sua ação pastoral uma ação transformadora. A irmã Margarida Montoja, do Comitê Dorothy Stang, concedeu entrevista à IHU On-Line em 2011, apontou a capacidade de organização e articulação política de Dorothy:

"1. Mapeou toda área de seu interesse e andava com estes mapas sempre em sua “boroca” (sacola de pano);

2. Fez levantamento dos possíveis donos dos lotes, descobriu onde havia grilagens e denunciou aos órgãos competentes;

3. Não trabalhava sozinha;

4. Descobriu o Projeto, Plano de Desenvolvimento Sustentável – PDS, que foi elaborado pelo governo FHC. Portanto, PDS não é invenção de Dorothy, é coisa de governo, pensado por uma equipe técnica. Ela descobriu isso que estava guardadinho em algum lugar e fez o governo executá-lo;

5. Escrevia tudo que acontecia, mesmo documentos, tudo com sua letrinha trêmula de idosa, mas, “tá tudo lá registrado, pra quem quiser ver e comprovar”, até citando nomes de seus algozes com muita antecedência;

6. Informava aos interessados toda caminhada feita pelo seu povo e pelos fazendeiros e madeireiros;

7. Ia à delegacia, ao Ibama, no MPF e estadual e onde pudesse denunciar os crimes;

8. Fazia parcerias com entidades e pessoas estratégicas para suas lutas e para realizar seus sonhos;

9. Sempre se colocava ao lado do povo e do meio ambiente;

10. Andava somente com o necessário em suas viagens;

11. Conhecia muito bem o alvo de sua luta;

12. Era minuciosa em suas anotações

13. Era uma grande mística que, aliada a seu espírito de luta, fez dela uma grande mulher, soube unir ação e oração".

A religiosa, portanto, soube conciliar a espiritualidade e a ação política. Em uma de suas frases marcantes expressava: "Não vou fugir nem abandonar a luta desses trabalhadores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor, numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar". Em entrevista à IHU On-Line, o procurador Felício Pontes Júnior definiu Dorothy como o "Anjo da Amazônia". "Tudo que ela tentou estabelecer foi o desenvolvimento integral dos povos da floresta. Isso implica também na relação do homem com a natureza. Ela trouxe para a prática a Teologia da Libertação em pleno século XXI", afirmou Felício.

O reconhecimento do trabalho de Dorothy foi mundial. Nos Estados Unidos, após a sua morte, foi premiada em diversas universidades com o título honoris causa, teve proclamado o "Dia Dorothy Stang", no estado do Colorado, e recebeu o prêmio de Direitos Humanos da ONU. Em memória dos 12 anos de sua morte, o portal National Catholic Reporter publicou um editorial intitulado "Dorothy Stang. A mais rara coragem cristã". A publicação fazia referência ao envolvimento direto de Dorothy com as populações amazônicas, destacando que "Suas sementes já brotaram, é o compromisso do Brasil em acelerar os acordos de terra para locais de desenvolvimento sustentável a agricultores pobres". Anos mais tarde, padre Amaro Lopes, também em Anapu, foi preso acusado de incitar conflitos de terra na região amazônica. Amaro, em entrevista ao Portal das CEBs, em fevereiro de 2019, declarou que a irmã Dorothy "ajudou-me a entender como se vive na prática o Evangelho. Defendendo os pequenos e pequenas em qualquer situação que ameaça a sua integridade física e de sobrevivência. Para mim foi uma mãe".

A declaração de Amaro é um exemplo do quão impossível é deter a semente que foi plantada na Amazônia brasileira com a irmã Dorothy Stang. Seus assassinos tentaram pará-la com seis tiros, em 14 de fevereiro de 2005. Embora cinco pessoas tenham sido condenadas como mandantes ou participantes do crime, hoje nenhum deles está preso. No entanto, nem Dorothy está morta. De 06 de outubro a 27 de outubro de 2019, toda luta que empenhou por três décadas na Amazônia é o centro das atenções da Igreja. Como destaca o jornalista espanhol Luis Miguel Modino: "Dorothy está viva na memória de quem continua lutando em defesa da Amazônia. Quem a matou nunca pensou que se converteria em um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em pauta através do processo sinodal".

Instituto Humanitas Unisinos