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PAPA FRANCISCO LEMBRA AOS CRISTÃOS QUE MIGRANTES E REFUGIADOS DEVEM SER ACOLHIDOS EM TODO O MUNDO

Publicado em 1/10/2019 por: Gerard O1Connell, America

O Papa Francisco denunciou novamente a “globalização da indiferença” e disse que “uma verdade que provoca dor” é que “este mundo é, cada vez mais, elitista, mais cruel com os excluídos”, ao celebrar a missa na Praça de São Pedro no 105º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, no dia 29 de setembro.

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada em America, 29-09-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele lembrou aos 40.000 fiéis presentes na praça e aos fiéis de todo o mundo que, “como cristãos, não podemos ser indiferentes diante do drama das velhas e novas formas de pobreza, das solidões mais escuras, do desprezo e da discriminação de quem não pertence ao ‘nosso’ grupo” e acrescentou: “Não podemos permanecer insensíveis, com o coração anestesiado, diante da miséria de tantos inocentes. Não podemos deixar de chorar. Não podemos deixar de reagir”.

No fim da missa, ele sublinhou o imperativo moral de acolher e dar hospitalidade aos migrantes e às pessoas descartadas, inaugurando uma escultura de bronze de seis metros de altura e três toneladas e meia no lado esquerdo da Praça de São Pedro.

A escultura retrata 140 migrantes e refugiados de diferentes culturas e períodos históricos, incluindo migrantes indígenas, judeus fugindo da Alemanha nazista, poloneses escapando do comunismo, e sírios e africanos fugindo da guerra, da pobreza e da fome. As 140 figuras correspondem às 140 esculturas da colunata da praça projetadas por Bernini.

É a primeira vez em 400 anos, desde a época de Bernini, que uma nova escultura foi instalada nessa praça. Concebida e desenhada pelo artista canadense Timothy Schmalz, a pedido do escritório vaticano para os Migrantes e Refugiados, liderado pelo cardeal-designado Michael Czerny e pelo missionário scalabriniano Pe. Fabio Baggio, que responde diretamente ao papa.

A escultura foi descoberta e revelada ao público após a missa por quatro migrantes, na presença do Papa Francisco, que a examinou em detalhes e apertou a mão de Schmalz, dos migrantes e daqueles que haviam contribuído para a sua realização.

No Ângelus, Francisco lembrou que a escultura expressa as palavras da Carta aos Hebreus: “Não se esqueçam da hospitalidade, pois algumas pessoas, graças a ela, sem saber acolheram anjos.”.

Milhares de migrantes e refugiados com vestes coloridas de muitos países que encontraram refúgio e um novo lar na Itália, graças também à Igreja italiana, estiveram presentes na missa. As orações foram feitas em árabe, suaíli, chinês, francês e italiano, enquanto famílias da Nigéria, Síria, Filipinas e Eslováquia trouxeram as oferendas para o papa.

Um coral do sul da Índia cantou os hinos, assim como outros cantores do México, Peru e Congo. Muitos usavam camisetas nas cores azul, verde, amarelo, vermelho e branco, representando os diversos continentes. O incenso usado na missa foi feito em um campo de refugiados etíopes.

Vestindo paramentos verdes, Francisco, na sua homilia, lembrou a todos que “se queremos ser homens e mulheres de Deus”, então, como São Paulo exorta a Timóteo, devemos “guardar o mandamento puro, de modo irrepreensível, até a aparição de nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele lembrou que “o mandamento é amar a Deus e amar o próximo” e enfatizou que “eles não podem ser separados!”.

O Papa Francisco disse: “Amar o próximo como a si mesmo também significa se comprometer seriamente para construir um mundo mais justo, no qual todos tenham acesso aos bens da terra, onde todos tenham a possibilidade de se realizar como pessoas e como famílias, onde a todos sejam garantidos os direitos fundamentais e a dignidade”.

Além disso, explicou, “amar o próximo significa sentir compaixão pelo sofrimento dos irmãos e das irmãs, aproximar-se, tocar as suas feridas e compartilhar as suas histórias, para manifestar concretamente a ternura amor de Deus em relação a eles. Significa fazer-se próximo de todos os viandantes maltratados e abandonados pelas estradas do mundo, para cuidar das suas feridas e levá-los ao lugar de acolhida mais próximo, onde suas necessidades possam ser atendidas”.

Ele lembrou que, na sua mensagem para o 105º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o refrão “Não se trata apenas de migrantes” é repetido porque “não se trata só de forasteiros; trata-se de todos os habitantes das periferias existenciais que, junto com os migrantes e os refugiados, são vítimas da cultura do descarte”. Francisco insistiu: “O Senhor nos pede para pôr em prática a caridade com eles; pede-nos para restaurar a humanidade deles, junto com a nossa, sem excluir ninguém, sem deixar ninguém de fora”.

Além do exercício da caridade, Francisco disse que “o Senhor nos pede para refletir sobre as injustiças que geram exclusão, em particular sobre os privilégios de poucos, que, para serem preservados, atuam em detrimento de muitos”.

Citando essa mensagem, o Papa Francisco disse: “O mundo atual vai-se tornando, dia após dia, mais elitista e cruel para com os excluídos”. Ele acrescentou: “Essa é uma verdade que provoca dor; este mundo é cada dia mais elitista, mais cruel com os excluídos”.

Depois, voltando ao texto da sua mensagem, disse: “Os países em vias de desenvolvimento continuam a ser depauperados dos seus melhores recursos naturais e humanos em benefício de poucos mercados privilegiados. As guerras abatem-se apenas sobre algumas regiões do mundo, enquanto as armas para as fazer são produzidas e vendidas noutras regiões, que depois não querem ocupar-se dos refugiados causados por tais conflitos. Quem sofre as consequências são sempre os pequenos, os pobres, os mais vulneráveis, a quem se impede de sentar-se à mesa deixando-lhe as ‘migalhas’ do banquete”.

Desde que se tornou papa em 13 de março de 2013, Francisco, filho de migrantes, procura despertar a consciência das pessoas em todo o mundo para a situação dos migrantes e refugiados, que é um resultado da maior crise humanitária desde o fim da Segunda Guerra Mundial e agora envolve, de acordo com as Nações Unidas, cerca de 70,8 milhões de pessoas que são forçadas a abandonar seu próprio país, incluindo 30 milhões de refugiados.

Com essa dramática realidade em mente, o Papa Francisco repetiu nesse domingo as palavras que pronunciara pela primeira vez quando visitou a ilha de Lampedusa em 8 de julho de 2013 para lamentar as milhares de pessoas que se afogaram no Mar Mediterrâneo a caminho de buscar refúgio na Europa: “Hoje, a cultura do bem-estar nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, leva à indiferença em relação aos outros; de fato, leva à globalização da indiferença”.

Nesse domingo, em sua homilia, ele foi mais longe e declarou: “No fim, nós também corremos o risco de nos tornar como aquele homem rico de que fala o Evangelho, que não se preocupa com o pobre Lázaro, ‘cheio de feridas, que queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico’. Muito intencionado a comprar roupas elegantes e a organizar banquetes luxuosos, o rico da parábola não vê os sofrimentos de Lázaro. E nós também, preocupados demais em preservar o nosso próprio bem-estar, corremos o risco de não nos darmos conta do irmão e da irmã em dificuldade”.

Ele concluiu sua homilia confiando “ao amor materno de Maria, Nossa Senhora da Estrada, Nossa Senhora das tantas estradas dolorosas, confiamos a ela os migrantes e os refugiados, junto com os habitantes das periferias do mundo e aqueles que se fazem companheiros de viagem deles”.

Gerard O’Connell, America

Instituto Humanitas Unisinos