Espaço Social

DEMANDA SOCIAL PELO MEIO AMBIENTE OBRIGA EMPRESAS A PENSAREM ALÉM DO LUCRO

Publicado em 25/9/2019 por: Miguel Ángel Garcia Vega

Lucro não é tudo: a sociedade exige um novo contrato social das empresas. Manifesto de 180 corporações norte-americanas se compromete a respeitar o meio ambiente responde a um crescente descontentamento.

Há dois tipos de capitalismo: o que gera valor para a sociedade e o que o espolia. Durante as últimas décadas, milhões de pessoas notaram que, apesar de terem trabalho, este é insuficiente para permitir uma vida digna; que o elevador social se desacelerou; que a desigualdade é imensa; que a cobiça parece o verbo mais conjugado pelas finanças, e que a crise climática poderia deixar um futuro abrasado de cinzas para seus filhos e netos. Se a promessa de um amanhã melhor, de uma vida melhor, que tem sido a base do capitalismo, se desvanece, o pensamento do homem entra em um círculo vicioso. Por que me sacrificar? Por onde seguir? Elizabeth Warren, a senadora democrata que quer chegar à Casa Branca, resume esta angústia: “As pessoas sentem que o sistema está arranjado contra elas. E sabe qual é a parte mais dolorosa? Elas têm razão”.

Onde estão as grandes empresas quando esta pena em cumprimento atravessa o planeta? Muitas estão brincando em seu jardim de recreio particular. “A cobiça corporativa está governando este país. E essa cobiça está destruindo os sonhos e as esperanças de milhões de norte-americanos”, criticava Bernie Sanders, outro dos candidatos democratas ao Salão Oval.

Em um mundo (até agora) de fronteiras gélidas, os problemas são jogos de espelhos entre as nações, e fica descoberto esse relato neoliberal de que a desregulação traria prosperidade a todos. Nos Estados Unidos, não por acaso, ao mesmo tempo em que o peso dos sindicatos decaía, os lucros empresariais, segundo a revista The Economist, passavam de 5% do PIB em 1989 para 8% atualmente.

Esses números procedem do dogma estabelecido em 1970 pelo economista Milton Friedman. O prêmio Nobel sustentava que o executivo-chefe, por ser um “empregado” dos acionistas, deve defender seus interesses, dando-lhes os maiores dividendos possíveis. Esta ideia, que fere como caminhar descalço sobre vidros quebrados, foi amplificada nas últimas décadas por escolas de negócios e executivos. O sistema métrico é o curto prazo, o sentido diário da companhia é um gráfico da Bolsa, e a cobiça, um cassino global. Friedman respondia assim numa entrevista: “Há alguma sociedade que você conheça que não se guie pela avareza? Você acha que a Rússia e a China não se guiam pela avareza? O que é a cobiça? Certamente, nenhum de nós é ambicioso, só o outro. O mundo se guia através de indivíduos que perseguem interesses diferentes”. Esta é a linha editorial que hoje continua escrevendo o destino de centenas de milhões de seres humanos.

Entretanto, as grandes empresas, sobretudo norte-americanas, sentiram que a mudança nos dias de hoje é trazida pela ira e pelo descontentamento, porque a sociedade exige companhias que melhorem suas vidas. Há algumas semanas, o Business Roundtable (BRT), um dos principais lobbies empresariais norte-americanos —que agrupa 181 grandes corporações como ExxonMobil, JPMorgan Chase, Apple e Walmart— lançou uma nota (que aliás não foi assinada por Blackstone, General Electric e Alcoa) em que redefinia o “propósito de uma empresa”. Os lucros dos acionistas passam a ser um objetivo a mais, e fala-se em “proteger o meio ambiente, fomentar a diversidade, a inclusão, a dignidade e o respeito”. O sentido, agora, é “criar valor para todos os grupos de interesse”. “Tudo isto terá como resultado um capitalismo mais sustentável e inclusivo”, afirma María Luisa Martínez Gistau, diretora de responsabilidade social corporativa do CaixaBank, da Espanha. O BRT só não explica como conseguirá tão bons propósitos.

Apesar de tudo, há esperança de que algo mude na CEOlândia. “É um sinal alentador. Mas só porque demonstra que os executivos-chefes entenderam a advertência: o pêndulo ameaça oscilar em direção contrária, e estão tentando controlar sua velocidade”, reflete Jeremy Lent, talvez um dos grandes pensadores de nossa era. Resta ver se a sociedade acredita na preocupação verde de uma petroleira como a Exxon ou do JPMorgan Chase, um banco que se tornou, segundo o BankTrack, uma rede de ONGs que vigia o comportamento financeiro, um dos maiores financiadores dos combustíveis fósseis do mundo, ao destinar mais de 196 bilhões de dólares (805 bilhões de reais) entre 2016 e 2018. “Porque a verdade é que o lobby não se compromete com nada extraordinário, apenas com o que deveria ser o comportamento básico de uma empresa”, critica Carlos Martín, diretor do Gabinete Econômico da central sindical espanhola Centrales Obreras. E acrescenta: “Os membros da BRT têm três características: são ambiciosos, querem deter o poder e são muito inteligentes. Viram o que se pode vir por aí com Sanders e Warren na esquerda do Partido Democrata e reagiram”. E as pesquisas lhes mostram que é um bom negócio mudar a forma de fazer negócios.

Confiança social

Pode ser, porque as corporações arrastaram a confiança social para a beira do precipício. Aí está o escândalo da Volkswagen, o comportamento do Facebook, a desonestidade do Wells Fargo e a atitude da Novartis. A farmacêutica acaba de apresentar um tratamento genético (Zolgensma) que poderia salvar crianças com atrofia muscular espinhal. Mas o preço, segundo o The New York Times, é de 2,1 milhões de dólares por paciente. Acredita-se que seja o medicamento mais caro da história. Nem sequer os gastos de pesquisa podem esconder a insensibilidade de uma empresa que recebe ajudas públicas. Estas são as empresas que guiarão o século XXI? Essa linha temporal é um pedestal manchado de vermelho. “O comunicado surge como uma resposta ao que se viveu nas últimas décadas. Os vícios do sistema econômico foram tais que os problemas de reputação ameaçam o próprio valor da companhia”, adverte Emilio Ontiveros, presidente da consultoria Analistas Financeiros Internacionais (AFI).

A sociedade ocidental sente que a democracia do acionista falhou. Existem vozes, é claro, que falam em outro registro e criticam alguns desses “vícios”. “Há rendimentos decrescentes despedindo as pessoas repetidamente”, reclama Jeff Ubben, fundador da firma ativista ValueAct Capital, na The Economist. “Não é a estratégia certa para o futuro”, acrescenta. Essas vozes, porém, são escassas, e o passado é outro país.

Logo após da divulgação da nota do Business Roundtable, outra associação, o Council of Institutional Investors —que representa muitas das companhias que estão no BRT e alguns dos maiores fundos de pensão dos EUA—, respondeu com contundência. “Responsabilização de todos significa responsabilização de ninguém. É o Governo, não as empresas, quem deve assumir a responsabilidade de definir e abordar os objetivos sociais com uma conexão limitada ou inexistente com o valor do acionista de longo prazo.”

As posições estão escritas em pedra. As empresas fogem, a declaração do BRT não deixa de ser palavras sobre um papel, a indústria do investimento se fecha no curto prazo, e qualquer CEO sabe que sem lucros será demitido. Então, o que fazer em um momento que exige redefinir o sentido das empresas? “Do meu ponto de vista”, diz Jeremy Lent, “as transformações que a nossa sociedade precisa só acontecerão quando os Governos forçarem as companhias a terem obrigatoriamente seus princípios sociais, ambientais e financeiros em seus estatutos”. Essa “afronta” ao cânone, que Elizabeth Warren também defende, tem resposta nas páginas conservadoras da economia. “As empresas não podem —e não devem— assumir responsabilidades sociais próprias do Estado, como educação, apoio ao bem-estar ou proteção ambiental. Além disso, a prática demonstra que as companhias são as instituições erradas para prestar assistência médica e apoio às pensões”, diz Martin Wolf, escritor e colunista do Financial Times.

Aqui a realidade se choca com esse Lego de vidro que é a natureza humana. “Propósito é o sabor do mês”, ironiza na The Economist Stephen Bainbridge, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). E pergunta: “Mas as empresas vão realmente impor um corte de 10% aos seus acionistas pelo bem dos grupos de interesse?”. E quando a empresa decidir que o lucro não é mais o seu principal objetivo, a quem prestará contas? Aos ativistas? Aos políticos? Questões não resolvidas, mas que revelam as dúvidas de um mundo em trânsito para outro tipo de sociedade.

Talvez este período esconda uma terceira via. Os ativos gerenciados sob critérios ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) na Europa, Canadá, Japão, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia cresceram de 22,9 para 30,7 trilhões de dólares (de 94,1 para 126,2 trilhões de reais) entre 2016 e o ano passado. “Se os executivos continuarem agindo em nome dos acionistas, mas estiverem cientes de que estão preocupados com questões sociais – o meio ambiente, por exemplo – assim como com os lucros, isso melhorará as coisas”, admite Oliver Hart, prêmio Nobel de Economia de 2016. “Se, pelo contrário, os gestores dirigem as empresas em função de seus próprios pontos de vista sobre questões sociais ou a importância dos grupos de interesse, isso poderia ser um passo na direção errada.”

Outra opção (já que a autorregulação nunca funcionou) seria criar uma estrutura que vigiasse e obrigasse os diretores a fazerem algo mais do que superalimentar os dividendos do acionista. Na última década, cerca de 3.000 empresas tiveram a classificação de B corporations. Isso significa que seu comportamento ético, social e ambiental foi certificado pela B-Lab, uma organização não governamental norte-americana. “A declaração do BRT é uma mostra de que a cultura empresarial mudou. Mas agora é hora de uma ação coletiva por meio da comunidade empresarial e dos políticos para trabalhar juntos e superar a primazia do acionista”, diz Andrew Kassoy, cofundador da B-Lab. O problema é que poucas grandes empresas assinaram esse protocolo, e a maioria é de marcas de consumo.

Apesar dos inúmeros pecados de muitas corporações, mudanças acontecem. Em 25 de agosto, cerca de trinta grandes companhias (Apple, Amazon, Unilever) deram o surpreendente passo de publicar uma página no suplemento dominical do The New York Times comprometendo-se a colocar o planeta à frente dos lucros. “É uma mudança que vem para ficar e surge de várias formas: a principal é que o contrato das empresas com a sociedade está sendo reformulado”, analisa Antoni Ballabriga, diretor global de Negócios Responsáveis do BBVA. E avança: “As empresas precisam se molhar mais e ver onde podem aportar maiores capacidades e gerar mudanças sistêmicas; precisamos passar das declarações para a ação”.

O executivo sabe o preço de decepcionar. O caso Villarejo —um escândalo de espionagem comercial envolvendo o BBVA na Espanha— teve impacto na reputação da sua instituição, que agora “enfrenta a necessidade de uma mudança radical em sua política de geração de lucro e, principalmente, de uma limpeza de imagem para aliviar os efeitos prejudiciais de sua imputação”, segundo Miguel Momobela, analista da corretora XTB. A colisão entre a ética e os lucros talvez seja o que o mundo precisa. Que ecloda a faísca, que o fogo se acenda; que escutem. “Dar rentabilidade aos acionistas é uma condição necessária para ter sucesso nos negócios no século XXI, mas não suficiente”, indica o economista José Carlos Diez, lembrando que “as empresas devem incorporar à sua estratégia cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e isso deve ser liderado pelo presidente e seu conselho de administração”.

Acender o pavio

No setor financeiro —talvez aquele com mais casos de comportamentos desonestos— esse fogo não arderá. Nem sequer os fundos mais ativistas parecem dispostos a acender o pavio. “Queremos promover mudanças nas companhias, não puni-las por suas atividades”, diz Matt Christensen, chefe de investimentos da gestora AXA Investment Managers. É o pensamento que une as principais praças financeiras do mundo. No presente ou no passado. “Napoleão disse que em ‘política os males devem ser remediados, não vingados’, e acredito que o mesmo deve se aplicar aos negócios”, afirma por e-mail Harald Walkate, diretor de ESG da Natixis Investment Managers. “É algo com o que os gestores interessados em investimentos socialmente responsáveis têm lutado. Eles trataram de identificar irregularidades ou práticas pouco éticas nas empresas e as enfrentaram, por exemplo, através de desinvestimentos (exclusões). Mas geralmente não é fácil saber o objetivo dessas ações. Influenciar o comportamento da empresa (remediar) ou punir as empresas (vingança)?” Talvez outro verbo: pressionar.

A Amazônia tem queimado como capim seco, e algumas gestoras, empresas e fundos de pensão deixaram de comprar títulos brasileiros.

Na última quarta-feira, 230 fundos de investimento internacionais que juntos administram 16 trilhões de dólares (cerca de 65 trilhões de reais) –valor equivalente a cerca de nove vezes o PIB do país em 2018– publicaram um manifesto, colocando mais pressão para que o Governo brasileiro apresente medidas efetivas para proteger a floresta amazônica e deter o desmatamento.

Uma tragédia planetária com a qual o presidente Jair Bolsonaro lidou de forma inepta. Punição ou pressão? Responsabilidade. Fabio Alperowitch, fundador da corretora Fama Investimentos, de São Paulo, diz que é sua obrigação, como brasileiro, dar relevância ao aquecimento global, “um assunto que tem pouca importância por aqui”. De fato, sua empresa não investe em companhias que fazem negócios com a Amazônia e nem naquelas que estão “relacionadas a agressões ambientais”. Talvez seja um dos poucos casos em que a palavra “fronteira” tem uma bela acepção.

Longe das florestas que hoje lembram a tristeza de um sicômoro, algumas das maiores gestoras de fundos do planeta, como a BlackRock, que administra seis trilhões de dólares (24,6 bilhões de reais), quer que os investidores e as empresas entendam um mundo diferente. Seu presidente, Larry Fink, insistiu em que o propósito de uma companhia deve ir além dos dividendos de seus acionistas. Um vento jovem sopra pelos galhos do sicômoro. Os millennials – que já são 35% dos trabalhadores – não querem trabalhar em empresas nas quais a fome ética seja sua razão social. A idade promove a mudança. Um trabalho da consultoria Gallup revelou que menos da metade dos jovens norte-americanos apoia o capitalismo. E “em geral preferem trabalhar em empresas com um forte compromisso social”, diz Jason Dorsey, pesquisador do The Center for Generational Kinetics. Embora também existam contradições. “Entre dois produtos ou serviços iguais, se o preço do comprometimento for 10% superior ou mais em comparação com o de menor responsabilidade, eles escolherão o mais barato”, esclarece o analista.

A sociedade começa a entender que as empresas são elas: as pessoas, e não os computadores, não os robôs, não a tecnologia. No ano passado, os funcionários do Google obrigaram a companhia a parar de fornecer ao Pentágono um sistema de inteligência artificial que usava em ataques de drones. E também vetaram um contrato de 10 bilhões de dólares destinado a transferir grandes quantidades de dados do Departamento de Defesa para um sistema de armazenamento na nuvem.

Enquanto isso, os trabalhadores da Amazon monitoram a relação de Jeff Bezos com as empresas petrolíferas. Novamente a fronteira, novamente a mudança. “As empresas perceberam que existe um movimento da sociedade civil e se alinharam a ele; tenho minhas dúvidas se o fizeram com sinceridade ou como estratégia de marca. Porque às vezes não convence: se você é uma empresa petrolífera e agora está preocupado com o bem-estar ambiental...”, avalia Federico Steinberg, pesquisador principal do Real Instituto Elcano, de Madri.

Mas é aí, na crise climática, onde parece que as corporações estão dando mais do que se esperava. Cerca de 25 grandes companhias, analisa a The Economist, incluindo quatro gigantes tecnológicas, se opuseram publicamente à retirada dos EUA do Acordo de Paris. Globalmente, 232 empresas cuja capitalização supera os seis trilhões de dólares se comprometeram a reduzir suas emissões de carbono, em linha com o objetivo de limitar o aquecimento global a menos de dois graus. Sem dúvida, se esse problema fosse um estilo de pintura, seria o tenebrismo de Caravaggio. Porque o homem pode sobreviver à peste, às guerras, às fomes, às crises econômicas, mas não à perda das terras férteis ou de um clima habitável. Jeremy Lent argumenta que precisamos de uma “civilização ecológica”, é a única maneira de evitar o “desastre”.

Mudanças sociais

É impossível explicar como chegamos até aqui sem algumas das piores características do ser humano, sem a obsessão do materialismo e sem a tirania do crescimento dos lucros. Um credo importado do pensamento econômico anglo-saxão e repetido nas mesas dessa fábrica de diretores e líderes que se supõe que sejam as escolas de negócios. “Instituições que tendem a ensinar que a maximização dos dividendos do acionista é o único valor que importa”, critica Martin Parker, professor de economia inclusiva da Universidade de Bristol (Reino Unido) e autor do livro Shut Down the Business School (“fechem as escolas de negócios”). Um título injusto? “Acredito que a culpa é mais de algumas escolas de economia do que das escolas de negócios”, diz Antonio Argandoña, professor do IESE, uma escola de negócios ligada à Universidade de Navarra (Espanha).

O relato chega ao começo. A voz de 181 corporações norte-americanas que se comprometem a mudar se fez ouvir. A sociedade civil, os reguladores e alguns políticos falam claramente: devem se evolver mais em um mundo com enormes desafios. A crise climática, a desigualdade, as pensões, a automação do trabalho, as consequências éticas da inteligência artificial. Há esperança. “A conversa está mudando, e isso é bom”, diz Ramón Pueyo, chefe de sustentabilidade da KPMG. Há desalento. “Se você busca grandes mudanças sociais, não acredito que estejam nos líderes das corporações. Elas não virão daí. As empresas precisam dar lucro. Se não o fizerem, não existem e não podem servir a nenhum tipo de propósito. É o que Milton Friedman tratava de dizer”, comenta, no The New York Times, o colunista Andrew Ross Sorkin, um dos criadores da série Billions. Os lucros talvez sejam fundamentais, mas sem transmitir um propósito social será mais difícil alcançá-los. Um planeta, principalmente jovem, quer outras corporações. Ou elas escutam ou muitas em breve serão a imaginária paisagem de uma lembrança.

Miguel Ángel García Vega, El País