Espaço Social

DESORDEM NA GOVERNANÇA GLOBAL E O CAOS NAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Publicado em 2/9/2019 por: José Eustáquio Diniz Alves

"A crise ecológica tem se agravado, enquanto as soluções propostas pela governança global tem fracassado ou tem sido insuficientes para reverter o caos ambiental. A ONU continua a representar a personificação do multilateralismo, mas sua legitimidade tem sido enfraquecida diante do crescimento do nacionalismo e dos interesses corporativos", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 30-08-2019.

Eis o artigo.

A humanidade tem degradado a biocapacidade da Terra e alterado as condições climáticas do Planeta gerando uma situação, cada vez mais grave, de caos ambiental, sendo que a desordem na governança global agrava a crise ecológica e dificulta a implementação de soluções para retirar o mundo da rota do precipício.

O artigo “Disarray in Global Governance and Climate Change Chaos”, de Martine e Alves, publicado na Revista Brasileira de Estudos de População (REBEP), em agosto de 2019, analisa a trajetória da mudança climática e as limitações dos esforços em andamento para lidar com ela, discute os riscos ambientais decorrentes das fragilidades da globalização e da desgovernança global e, finalmente, considera os caminhos e os descaminhos para a resolução do trilema atual para lidar com os problemas econômicos, sociais e ambientais.

O crescimento das atividades antrópicas (para satisfazer as necessidades de alimentação, educação, saúde, moradia, etc.), aumenta a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e aceleram o aquecimento global. A utopia do desenvolvimento sustentável – socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável – tem se tornado uma distopia. O enriquecimento humano tem ocorrido às custas do empobrecimento da natureza.

A década de 1990 pressagiou uma possível fase brilhante na governança global, com a queda do Muro de Berlim servindo de pano de fundo para o surgimento de uma nova ordem global. As Nações Unidas lideraram uma busca por consenso internacional por meio de uma série de Conferências sobre questões vitais que vão desde população e direitos humanos até a sustentabilidade ambiental. Enquanto isso, os princípios liberais, inspirados pelo Consenso de Washington, prometiam elevado crescimento econômico e importantes benefícios sociais para a população mundial. Um quarto de século depois, as perspectivas de prosperidade, democracia e harmonia global diminuíram drasticamente.

De fato, a crise ecológica tem se agravado, enquanto as soluções propostas pela governança global tem fracassado ou tem sido insuficientes para reverter o caos ambiental. A ONU continua a representar a personificação do multilateralismo, mas sua legitimidade tem sido enfraquecida diante do crescimento do nacionalismo e dos interesses corporativos.

A Agenda 2030 da ONU – Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – embora sejam iniciativas meritórias, são insuficientes e ineficazes para resolver os problemas estruturais gerados pelo paradigma hegemônico do desenvolvimento e do crescimento econômico ilimitado, degradador das bases ecológicas do Planeta.

É urgente ir além das iniciativas atuais e realizar discussões sérias sobre as causas estruturais da crise ecológica gerada por nossa civilização e pelo modo de produção e consumo das sociedades em geral, em especial aquelas viciadas no “consumicídio”.

José Eustáquio Diniz Alves - ENCE